A melancolia

Pessoas que sofrem de depressão explicam como convivem constantemente com “vazio”, “apatia”, “silêncio”. Se não tratada, a doença pode levar ao suicídio.

AVISO DE GATILHO: O MATERIAL A SEGUIR APRESENTA CONTEÚDO RELACIONADO A DEPRESSÃO E SUICÍDIO 

Nada. Essa é a palavra mais falada por ela durante o relato. “Nada. A vida da gente não tem sentido. É literalmente um nada. Se você me perguntar ‘Janaina, o que você sente?’ Nada. ‘Você se gosta? Você gosta da sua casa? Você gosta do seu trabalho?’ É nada”, explica, enquanto mexe as mãos de um jeito nervoso.

“Eu não namoro, faz dois anos e meio que eu não consigo ter um namorado. Porque não faz sentido eu ter um namorado, a gente tem que ter alguém quando a gente se gosta. Eu sempre senti um nada, é um vazio. Não tem… Não tem algo ali que preenche, sabe?”, sua voz quebra um pouco ao dizer a última palavra. “É nada. É literalmente nada. A palavra nada é o resumo de tudo”, sentencia.

É assim que Janaína Leandro, que tem 29 anos e é da cidade de Pederneiras, no estado de São Paulo, descreve o modo como se sente em seu dia a dia desde que tentou o suicídio pela primeira vez, quando tinha apenas 12 anos de idade. Ela foi diagnosticada com depressão há apenas dois anos, mas apresenta os sintomas desde a infância. “Faz mais ou menos uns dois anos que eu tive uma crise feia, mas na verdade desde criança eu tive vários problemas. Isso vem desde sempre”, diz.

Essa demora no diagnóstico, infelizmente, é comum, por conta do tempo que as pessoas levam para aceitar que podem ter a doença – seja por ignorância, seja por medo do estigma que está ligado a problemas de saúde mental. O desconhecimento e o preconceito persistem ainda hoje, mesmo que as primeiras sistematizações de características depressivas no mundo Ocidental tenham sido feitas centenas de anos antes de Cristo, por Hipócrates, considerado o pai da medicina.

Hipócrates criou a teoria humoral, segundo a qual uma pessoa saudável teria que ter um equilíbrio entre os quatro humores: bile amarela, fleuma, sangue e bile negra. O termo “melancolia” vem do grego, a partir das palavras mêlas (negro) e kholê (bile). O excesso de bile negra seria o que causaria a depressão, chamada de “estado melancólico” por Hipócrates e caracterizado por tristeza e angústia persistentes e perda de apetite.

Atualmente, a depressão, ou transtorno depressivo maior, é definida como um distúrbio mental caracterizado por um sentimento de tristeza ou irritação que persiste por um período mais longo do que o normal, o que acaba atrapalhando a rotina de quem apresenta os seus sintomas – ou seja, é uma doença incapacitante.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM), que está em sua quinta edição (DSM-5), foi criado pela Associação Americana de Psiquiatria para definir diretrizes para o diagnóstico de transtornos mentais e é amplamente utilizado no mundo todo. Segundo o DSM-5, a depressão está relacionada a uma “presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo”.

Os sintomas, no geral, incluem perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas, oscilações de humor, sentimento de culpa, baixa autoestima, além de distúrbios do sono ou do apetite. Pode ser frequente a falta de energia, cansaço e falta de concentração.

Foi tentando fazer outras pessoas entenderem como é sentir tudo isso que a escritora Sabrina Benaim, de Toronto, no Canadá, escreveu o poema “Explaining My Depression to My Mother” (“Explicando minha depressão para minha mãe”, em tradução livre).

Os trechos acima foram retirados do poema “Explaining My Depression to My Mother” (“Explicando minha depressão para minha mãe”, em tradução livre), de Sabrina Benaim. O vídeo de sua performance declamando o poema no Slam Nacional de Poesia 2014, em Toronto, pode ser visto .

O transtorno mental está relacionado a mudanças cerebrais. Sandra Calais, psicóloga clínica e docente do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru, explica que, na depressão, existe alteração de neurotransmissores. “Só que a gente não sabe o que acontece primeiro: se uma alteração de neurotransmissores levaria a um quadro depressivo ou se um quadro depressivo altera neurotransmissores”, fala.

Sabe-se que a depressão está ligada a fatores genéticos. Inúmeros estudos comprovam essa afirmação, como o de cientistas russos do Instituto de Citologia e Genética (ICG) de Novosibirsk, na Sibéria, que identificaram um gene que causa a doença. Os pesquisadores utilizaram dados cedidos pelo Centro Médico Erasmus, de Roterdã, que se dedica a estudar a depressão.

Nem todas as pessoas com predisposição genética, no entanto, desenvolvem o transtorno, pois ela também depende de fatores ambientais. Características do ambiente de convivência do indivíduo podem afetar sua saúde mental e funcionar como gatilho para episódios depressivos. Podem agir como gatilhos fatores como o luto, o período pós-parto, términos de relacionamentos e fracassos profissionais, por exemplo. As mulheres são mais vulneráveis à depressão, por causa das oscilações hormonais a que estão expostas.

Algumas pessoas que têm depressão podem apresentar episódios depressivos separados por intervalos de anos em que a doença não aparece, enquanto outros manifestam os sintomas de forma quase permanente. Os episódios depressivos podem durar meses e até anos.

Há tratamento para o transtorno, que pode consistir na combinação de psicoterapia e medicação, sempre com o acompanhamento de profissionais capacitados, como psiquiatras e psicólogos. Se não tratada, a depressão pode levar ao suicídio.

Calais reforça como o tratamento correto da doença é importante. Ela afirma que, após ter um quadro depressivo, sua probabilidade de deprimir novamente é muito maior do que quem nunca teve um episódio. E a cada episódio depressivo, as chances de recaída aumentam e a condição de depressão pode cronificar. “Você vê pessoas que passam a vida com depressão”, diz.

Sandra Calais explica a importância de tratar corretamente a depressão desde o primeiro episódio depressivo 

Segundo ela, a remissão total dos sintomas pode acontecer com o uso correto da medicação e alterações no estilo de vida. “Tive quadros de pessoas com depressão que mudaram a vida delas e nunca mais tiveram um episódio. Elas passaram a valorizar atividade física, buscaram terapia e ficaram com um autoconhecimento mais forte, o que acaba permitindo que elas identifiquem situações de sua vida que as fazem mal”, diz.

Hewdy Ribeiro, médico psiquiatra, que trabalha com o atendimento a pacientes com depressão há aproximadamente 20 anos, explica que a doença tem vários níveis de gravidade: leve, moderada e grave. Muitas vezes, a depressão leve pode ser confundida com questões relacionadas a personalidade ou até mesmo “frescura”, fazendo com que o próprio paciente demore a procurar ajuda, o que aumenta os riscos de agravamento do seu quadro.

Hewdy Ribeiro explica a diferença entre depressão leve, depressão moderada e depressão grave 

Os sintomas podem aparecer de repente, sem motivos aparentes, mas também podem ser desencadeados por eventos traumáticos, como perdas de pessoas queridas ou fracassos na vida pessoal ou profissional. No caso de Anderson Mendes, comunicólogo de 38 anos que mora em São Paulo, houve um evento traumático desencadeador.

Anderson passou pelo que ele chama de “um episódio de violência”, envolvendo sua agora ex-mulher, sua mãe e ele próprio, durante a comemoração do seu aniversário em um restaurante em Portugal, onde ele morava. Depois do acontecimento, ele teve um episódio depressivo no qual não conseguia sair da cama. Após um mês, ele acabou se mudando de volta para o Brasil.

Mesmo assim, ainda demorou para Anderson perceber que tinha depressão. A percepção de que era depressivo se deu por conta de um trabalho. Ao ser chamado para ser diretor de cena de um projeto do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP) e ouvir o psiquiatra Dr. Wagner Gatazz, líder do Instituto, falar sobre as características da doença, ele percebeu que tinha todos os sintomas.

Anderson Mendes conta como foi o dia em que ele percebeu que precisava procurar ajuda, o “dia do basta”

“Mesmo com um episódio de depressão ficando durante quase 30 dias sem sair da cama, não tinha caído a ficha, eu ainda não tinha percebido”, relata. Ele afirma que o processo de aceitação de que tinha a doença e de que precisava procurar ajuda foi longo, porque ele tentava empurrar o problema com a barriga. Até que ele não aguentou mais. Anderson nomeou esse momento de “dia do basta”.

Fazendo terapia e sem tomar medicação por aproximadamente dois anos, ele afirma que precisará voltar a tomar remédios. “A depressão é uma doença cíclica. Então a gente precisa sempre estar com o punho para cima. Neste momento eu preciso do medicamento para voltar a equilibrar”, explica. Para ele, é muito difícil até levantar da cama de manhã.

“Eu estou em um momento baixo. O que eu mais sinto hoje em dia é anestesia, no corpo inteiro. Apatia, na verdade. É a sensação que mais determina a depressão. Muita gente ainda conecta ela com a tristeza, mas não é. A depressão é caracterizada pela ausência de sentimento, ou seja, a apatia”, diz.

Melissa Ligeiro explica como percebeu que tinha depressão e que precisava de ajuda. Seus sintomas foram desencadeados por vários fatores: seus animais de estimação faleceram, ela perdeu sua bolsa na faculdade (que depois entrou em greve) e um relacionamento amoroso terminou em sua vida 

Melissa Ligeiro, que é de Jaboticabal, no interior de São Paulo, tem 20 anos e é estudante universitária. Ela teve seu primeiro episódio depressivo após passar por um período difícil em que um evento traumático se juntou com outras situações. Ela conta que ficou muito mal depois da morte de suas cachorras de estimação. Ao mesmo tempo, teve dificuldades para se manter morando fora de sua cidade para estudar, além de terminar um relacionamento. Ela percebeu que apresentava os sintomas de depressão e decidiu procurar ajuda.

João*, que tem 23 anos e é estudante universitário, sentiu a depressão em sua vida há mais ou menos seis anos, quando começou a ter problemas de convivência, começou a ter crises e menos vontade de fazer tarefas do cotidiano. Não houve um grande motivo desencadeador. “Teve fases piores e melhores até o diagnóstico, que aconteceu há mais ou menos dois anos”, diz.

Apesar de não ter tido um gatilho para começar a apresentar os sintomas da doença, ele afirma que quem tem depressão precisa se prevenir para que novos episódios não aconteçam. “Quando a gente tem depressão, a gente tem que tomar certos cuidados para o resto da vida. São coisas muito específicas que podem nos fazer mal. Podem dar essa carga emocional que pode levar a esse pico [de depressão]”, afirma.

Para ele, o período mais difícil foi durante o cursinho de preparação para o vestibular. Ele descreve a época como de muita pressão para passar na prova de admissão em uma faculdade, o que acabou o derrubando. “Era bem complicado. Junto com as questões de vestibular e problemas pessoais que eu estava passando, chegou uma época que foi muito difícil, que eu me sentia mais triste que o normal e que eu fiquei muito perto de me isolar”, conta.

O isolamento completo de João de seus familiares e amigos só não ocorreu porque, na época, ele estava procurando emprego e acabou conseguindo uma vaga que almejava. Isso o tirou um pouco de casa e o forçou a acordar, sair da cama e organizar uma rotina para que fosse possível permanecer com o trabalho.

João afirma que a depressão tirou muitas coisas dele, mas que o principal foi a convivência e as experiências que ele poderia ter durante a faculdade. Ele diz que o transtorno o faz se sentir inadequado para o convívio social. “Às vezes eu me vejo passando por isso ainda na faculdade por enfrentar a doença. É difícil porque eu queria fazer certas coisas e eu não faço porque tem essa questão. E eu sinto como se eu pudesse estar vivendo o período da faculdade de uma maneira melhor do que eu estou vivendo realmente se eu não tivesse a doença”, desabafa.

Ele fala que é preciso estar atento aos sinais da doença, porque eles são difíceis de perceber, principalmente com a vida corrida que nós levamos atualmente, na qual não há espaço para se preocupar com a saúde mental. “É uma coisa que simplesmente se instala, se impregna em você e, quando você se dá conta, você está com a doença. Demora para você perceber, demora até mais para você aceitar e você tem que passar muito tempo da sua vida lutando contra aquilo”, explica.

Quando perguntado se ele conseguiria descrever a depressão em uma palavra, João respondeu “silêncio”. “Se fosse para associar a depressão a alguma coisa, seria ao silêncio”, afirma.

*João é um nome fictício, pois o personagem preferiu não ser identificado

Não é coisa da sua cabeça

Muita gente ainda não entende, mas ter depressão não é escolha, fraqueza ou falta de esforço. É sofrer de uma doença, um transtorno mental que, só no Brasil, atinge 5,8% da população.

, , e fazem parte dos 11,5 milhões de brasileiros que têm depressão, o que significa 5,8% da população do país. Os dados foram divulgados no relatório “Depressão e outros distúrbios mentais comuns: estimativas globais de saúde” da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017 e são referentes ao ano de 2015. Segundo o relatório, o Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo com maior prevalência nas Américas, ficando atrás somente dos Estados Unidos, onde 5,9% dos habitantes têm a doença.

O mesmo levantamento mostra que o transtorno já afeta 322 milhões de pessoas no mundo – 4,4% da população mundial. O número subiu 18,4% em apenas 10 anos, de 2005 a 2015. Em abril de 2017, a OMS alertou que a depressão é considerada a principal causa de problemas de saúde e incapacidade em todo o mundo e que a queda da produtividade vinculada ao transtorno gera perdas anuais que se aproximam de 1 trilhão de dólares.

Os números são alarmantes, mas o que assusta mais é o desconhecimento. A ignorância a respeito da depressão contribui para o estigma que, de modo geral, está ligado a todos os transtornos mentais. É muito frequente pessoas depressivas ouvirem que o que elas têm, na verdade, é “frescura”, “coisa da cabeça delas”, “nada demais”, que “logo passa”. O fato de saúde mental ainda ser um tabu tão grande indica como há um longo caminho de evolução pela frente.

Janaína Leandro fala sobre o estigma em torno dos transtornos mentais e como outras pessoas sempre acham que “depressão é frescura”

Janaína conta como é difícil aceitar a doença por causa do preconceito e das noções erradas acerca do assunto. Ela relata que até mesmo sua mãe dizia que sua depressão era “frescura” dela. Explica que chegava a se machucar para tentar aliviar a dor que sentia por causa da doença.

Para Melissa, o mais difícil depois de aceitar que tinha depressão foi contar para a família. Ela tinha medo de como seus pais reagiriam. “Aí entrou a parte difícil. Eu estava com muito medo, porque eu já tinha ouvido algumas vezes da minha mãe que ‘depressão é frescura’. Então eu estava com muito medo de falar”, diz. Apesar disso, ela fala que, depois de contar, recebeu muito apoio de todos os familiares – coisa que ela não estava esperando e que foi fundamental para ela dar continuidade ao tratamento.

Elaine Lúcia de Oliveira fala sobre preconceito em relação à psiquiatria 

A psiquiatra e psicoterapeuta Elaine Lúcia de Oliveira afirma que, de modo geral, houve uma grande evolução em relação ao preconceito cultural enfrentado pela psiquiatria. Mesmo assim, ela acredita que ainda temos um longo caminho a percorrer.

Os números do relatório da OMS são um sinal de alerta para que indivíduos e governos do mundo todo repensem a sua visão de assuntos relacionados a transtornos mentais para passar a tratá-los com a urgência que eles merecem. O preconceito em torno dos problemas de saúde mental faz com que tais temas não sejam discutidos, diminuindo a propagação das informações sobre essas doenças.

A desinformação tem um lugar de destaque entre os motivos que fazem as pessoas que apresentam os sintomas da depressão a não buscarem o tratamento adequado – junto, é claro, do medo do julgamento dos outros. “O que as pessoas vão pensar se eu tiver que fazer tratamento psiquiátrico?”. Muita gente que identifica sinais do transtorno mental nelas mesmas não procuram tratamento por conta desse preconceito.

Por isso falar sobre esse assunto é tão importante. Formado em Comunicação Social, Anderson escolheu a figura do palhaço como instrumento para poder levar a sua mensagem às pessoas. O seu palhaço não entra em um picadeiro, mas viaja o país fazendo as “paliestras” – palestras que usam o universo lúdico do personagem de circo para tocar em temas pesados, como depressão e suicídio.

Essas “paliestras” são parte do projeto “Depressão não é frescura”, idealizado pelo comunicólogo, que rendeu um livro de mesmo nome. Foi a partir do projeto que surgiu o Instituto Gente Feliz, pelo qual ele visita presídios, ONGs, centros religiosos, empresas, escolas, etc. realizando as “paliestras”. “Todo lugar onde tem uma portinha para a gente falar, a gente vai e faz essa apresentação”, ele conta.

Anderson Mendes conta um pouco sobre como funcionam as suas “paliestras” 

Anderson explica que o seu objetivo com o projeto é levar informação para que as pessoas possam identificar os sintomas nelas mesmas e perceber: posso estar com depressão – sem esquecer que o diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde. “E talvez o mais importante: oferecer ferramentas para que amigos e familiares de um depressivo saibam o que fazer quando identificar que o seu ente querido tem um problema relacionado com a depressão”, afirma ele.

Larissa Zeggio é psicóloga e autora do livro “A depressão como fenômeno cultural na sociedade pós-moderna: um ensaio analítico-comportamental dos nossos tempos”. Ela também tem depressão. É por isso que hoje, Zeggio, assim como o Anderson, se dedica à conscientização sobre saúde mental, falando sobre o assunto, levantando discussões, propagando a mensagem de que o transtorno mental é uma doença, com o objetivo de diminuir o preconceito ajudar o máximo de pessoas que ela puder.

O diagnóstico de depressão da autora veio quando ela tinha em torno dos 23 anos, ao passar por um episódio depressivo bastante severo. “Desses de não levantar da cama, não tomar banho, não sair para trabalhar, não fazer nada. E que era muito intenso sem um motivo tão aparente. Acho que foi a primeira vez que eu me dei conta de que não era só que eu era muito intensa ou que eu ficava triste, ou qualquer coisa do gênero”, explica.

Ela fala sobre o estigma em torno dos transtornos mentais. Hoje, ao analisar a sua vida em retrospecto, ela percebe que teve outros episódios depressivos antes do diagnóstico: aos 17 anos, aos 19, mas era complicado falar sobre aquilo e procurar tratamento. “Era um tabu. Eu lembro que a primeira vez que eu tomei medicação, minha mãe, que é uma pessoa instruída, que me ama muito, virou para mim e falou: ‘Não, não vai tomar remédio. Eu pago para você não tomar remédio, pago para você fazer alguma outra coisa’. E eu respondi ‘Você não está entendendo. É isso ou isso’”, relembra.

Larissa Zeggio explica que não tolera certas coisas em relação a comentários de outras pessoas sobre depressão 

Atualmente, a psicóloga consegue impor certos limites em relação ao que ela está disposta a ouvir dos outros quando se trata da sua depressão, para que os comentários não façam mal a ela. Para ela, as pessoas não falam tudo aquilo por mal, mas porque querem ajudar. “As pessoas falam isso por ignorância. Não é má fé, não é maldade. Elas tentam te mostrar o mundo com os olhos que elas têm. Que é ‘poxa, mas veja: você ganha x, você tem o marido y, você tem um trabalho, uma casa, você é linda’. Tipo, ‘você não está enxergando, vou desenhar para você o que você tem de bom na vida’”, fala.

Zeggio explica que isso só a motiva mais a falar sobre o assunto para construir um ambiente menos ignorante na sociedade. “Quando você mostra para a pessoa que esse recurso que ela usa não funciona e piora a condição do outro, você diz para ela ‘ao invés disso, faça assim, isso vai ter um efeito melhor’, você melhora a qualidade de vida não só de quem tem depressão, mas dos outros também”, afirma. Segundo a psicóloga, é muito importante ensinar as pessoas a como lidar com quem tem depressão, o que só é possível disseminando informação sobre a doença.

“Nossa, mas VOCÊ tem depressão? Mas nem parece. E você tem tudo… Eu nunca adivinharia se você não me contasse.”

Janaína Leandro diz que pessoas de fora nunca imaginariam que ela tem depressão 

Essa é uma reação muito comum quando é revelado que um conhecido tem depressão. Janaína diz que as pessoas que não sabem que ela tem a doença nunca imaginariam mesmo pelo que ela passa.

O trecho acima foi retirado do vídeo (“Vivendo com depressão”, em tradução livre), do canal do Youtube Kat Napiorkowska

No caso da Larissa Zeggio, por ela ser psicóloga, a surpresa no rosto dos outros ao saber que ela tem depressão é ainda maior. Ela conta que fingia muito para as outras pessoas que estava bem, quando na verdade estava passando por um episódio depressivo. Desde a época da faculdade, ela diz que colocava a tal máscara social, para que fosse possível passar pelos seus dias sem ser incomodada pelos outros.

“Meu marido na época, meu primeiro marido, percebia que eu não estava mais fazendo as coisas que eu queria, mas como ele ficava mais tempo fora de casa, era tranquilo. Quando ele chegava, eu botava a ‘cara de paisagem’ e estava tudo ok. Até chegar um ponto que não deu mais para esconder, porque ficou um quadro muito severo”, conta.

Sandra Calais explica como a depressão atrapalha a vida das pessoas que têm a doença

O “ponto em que não [dá] mais para esconder” seria quando a depressão se torna tão incapacitante que é impossível realizar até mesmo tarefas do dia a dia e satisfazer nossas necessidades básicas de sobrevivência – como comer, por exemplo. explica que o transtorno limita a vida da pessoa de uma forma que ela nem mesmo toma banho.

Para Janaína, fazer qualquer coisa é muito difícil. Ela diz que só consegue realizar tarefas quando tem obrigação. Nem mesmo se alimentar é algo que ela faz se não houver uma pessoa para obrigá-la.

Janaína Leandro conta sobre um fim de semana em que passou o domingo todo na cama – se não tiver obrigações, ela não levanta

“É bem isso: qual é o sentido das coisas? Você não encontra sentido. Eu como quando tem alguém em casa. Senão você não consegue ter perspectiva para comer. Banho? A gente toma banho porque é necessário tomar banho. Porque você olha para o chuveiro… tomar banho para quê?”, questiona.

João afirma que as pessoas acham que depressão é só você não fazer nada. “Não é assim que funciona. Quando você tem esse tipo de doença, você pode ter as 24 horas do seu dia ocupadas, mas é algo que está dentro de você, que está lá. Então é muito errônea essa afirmação das pessoas de que depressão é falta do que fazer, é falta de ‘ter uma louça para lavar’, etc.”, fala.

Para ele, o fato de ter obtido um emprego durante uma situação crítica da doença o ajudou, porque ele pôde ter uma obrigação. “Eu pude realmente ter pelo menos alguma coisa que me motivasse ou me forçasse a acordar no dia, porque ou você acorda e vai trabalhar ou você é demitido. Mas ainda assim foi bem difícil, porque a doença continua ali”, explica.

Existem sem existir, são levados através da vida por suas obrigações, assim como um toco de madeira seco é levado pela água da correnteza.

Sinais

Os sintomas da depressão podem variar muito de uma pessoa para a outra.

Hewdy Ribeiro, médico psiquiatra, explica como é a depressão atípica 

A depressão apresenta como os seus principais sintomas humor deprimido, desânimo, perda de prazer, insônia, redução do apetite, lentificação dos movimentos, sentimento de culpa, falta de energia, dificuldade de concentração, perda de esperança, desejo de morte e tentativas de suicídio. Há a chamada depressão atípica, na qual os sintomas diferem desses sintomas clássicos, segundo o médico psiquiatra Hewdy Ribeiro.

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), que é o mais utilizado entre os profissionais da área da saúde mental, para que haja o diagnóstico de transtorno depressivo, a pessoa precisa apresentar pelo menos cinco dos sintomas listados no manual por pelo menos duas semanas – sendo que pelo menos um dos sintomas deve ser humor deprimido ou perda de prazer.

O Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5) é o mais utilizado entre os profissionais da área da saúde mental
O Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5) é o mais utilizado entre os profissionais da área da saúde mental

Por conta dos diferentes tipos de sintomas, é difícil que as pessoas apresentem quadros de depressão parecidos. Pacientes que sofrem da doença podem apresentar sintomas extremamente opostos: enquanto não consegue dormir de jeito nenhum, outro pode dormir mais de 15 horas por dia. Por isso é arriscado, (e não recomendado) se guiar única e estritamente ao que os manuais de psiquiatria determinam. Segundo a psiquiatra Elaine Lúcia de Oliveira, qualquer um pode achar que tem transtornos psiquiátricos meramente olhando em manuais de diagnóstico.

Há características que são predominantes em determinadas faixas etárias. A psicóloga Larissa Zeggio diz que é comum, por exemplo, que crianças e adolescentes que possuem o transtorno fiquem irritados e confusos. “Quanto mais jovem, o comportamento observado é mais de irritação e raiva do que de tristeza. Crianças e adolescentes têm o cérebro menos desenvolvido e algumas funções cerebrais, como controle de impulsos, por exemplo, são menos presentes. Em crianças e adolescentes, portanto, o comportamento não parece ser de tristeza”, explica. Tanto as crianças quanto os adolescentes, ao desenvolver a doença, podem começar a apresentar irritação a coisas que eles antes gostavam.

Melissa relata os sintomas que apresentou na sua depressão

Foi isso o que aconteceu com . Ela afirma que houve um determinado período em que ela ficava irritada com todo mundo que estava ao seu redor, não tinha paciência e ficava muito nervosa ao fazer provas. Ela acrescenta que nenhum desses comportamentos eram comuns para ela. Em estágios mais avançados do transtorno, ela não queria sair de casa, não tinha vontade de fazer nada e preferia sempre ficar dormindo.

Dormir é o que costuma fazer. Para ele, o sono funciona como fuga. “O sono pode ser uma droga. A depressão pode trazer a insônia ou a hipersonia. No meu caso é a hipersonia. Se eu puder eu passo dias dormindo – e não é uma forma de se expressar, eu durmo mesmo. Você quer fugir”, relata. Raphael Jarcovis, 22 anos, estudante universitário de São Paulo, era outro que dormia muito. Segundo ele, a hipersonia e a falta de apetite foram os principais sintomas no seu caso. Ele relata uma indisposição e a ausência de prazer no que antes era prazeroso.

Raphael Jarcovis diz que os principais sintomas que apresentou foram hipersonia e falta de apetite

A falta de motivação e não sentir prazer em nada foram sintomas que afetaram Arthur Macedo, de 20 anos, que também é de São Paulo e estudante universitário. Ele foi diagnosticado com depressão quando estava na sétima série, após uma tentativa de suicídio. “Antes de fazer o tratamento, eu realmente tive dias que acordava e não queria fazer nada. Você tenta procurar qualquer coisa que te dê prazer e não encontra. É você se sentir uma pessoa inútil, se sentir uma pessoa horrível”, fala. Ele era muito afetado por coisas pequenas. “Qualquer coisinha que acontece, alguma brincadeira que alguém faz, acaba com seu dia”, diz.

Com é assim. “Coisas pequenas, que para a maioria das pessoas é algo comum, para pessoas depressivas é um poço sem fundo. Então você acha que a vida não tem sentido. E é o que acontece comigo. Eu sempre acho que não tenho motivo para viver”, ela relata. Janaína fala que nada a motiva e que a hora de dormir é a pior hora, porque ela tem insônia. “Quando eu deito, eu só penso em coisa que não presta”, confessa.

sente um cansaço que vem das próprias cobranças. “Eu costumo me cobrar muito, se as coisas não acontecem do jeito que eu quero, a depressão vai me fazendo sentir menos do que as outras pessoas. Tenho tendência ao esgotamento. Já aconteceu de dias eu não querer levantar de jeito nenhum, sem coragem de enfrentar”, explica. A falta de motivação é um dos seus sintomas. “A depressão te deixa de um tal modo que você não vê mais motivação para viver. Tudo começa a ser insignificante, nada mais vale a pena, você só quer se isolar. É muito complicado”, explica.  

Segundo a psicóloga Larissa Zeggio, o nosso organismo é uma coisa só e a divisão em mental e biológico é um equívoco. “Até porque o mental é só um produto do funcionamento do cérebro. Como seria respirar, o produto do funcionamento do pulmão. Então fazer essa dicotomia é muito arcaico”, afirma. Ela explica que a depressão, apesar de ter repercussões psicológicas, é sim uma doença física. “Depressão é uma doença física. É do seu corpo. Não é da sua alma, do seu espírito. Pode acreditar no que você quiser, mas não é uma doença metafísica, ela é uma doença física. É um mau funcionamento de algumas regiões do cérebro”, reforça.

Ela explica que, sendo uma doença física que começa no cérebro, os primeiros resultados biológicos são no próprio cérebro. “Não no seu paciente, porque a gente não tem tecnologia hoje para fazer esse tipo de exame em uma pessoa viva. Em geral, o que a gente vê é post mortem, depois de morrer olha o cérebro como era, ou em animais. E a gente sabe que há uma alteração de neurotransmissores em quem tem depressão”, fala.

Hewdy Ribeiro, psiquiatra, esclarece que há muitos anos, a depressão é considerada uma doença sistêmica, ou seja, que afeta o corpo todo. “Quando falamos em doença sistêmica, significa que ela repercute além do humor, do sono, do apetite, da sensação de energia, da sensação de prazer. Por exemplo, pessoas com depressão são mais sensíveis à dor. Elas sentem dor de cabeça, dor lombar, dor de garganta, o que seja de maneira mais intensa”, afirma. O transtorno aumenta o risco de o paciente ter outras doenças. “Aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio, de acidente vascular cerebral. E pessoas depressivas não tratadas estão mais suscetíveis a doenças infecciosas, a doenças neoplásicas e a qualquer outro tipo de adoecimento”, diz.

A depressão não tratada e cronificada, segundo o psiquiatra, pode ter repercussões cerebrais. “Especialmente a depressão grave, se não tratada, pode causar atrofia cerebral, que é a diminuição do volume do cérebro. Isso constitui um fator de risco para o desenvolvimento de doenças como Alzheimer”, fala.

Ribeiro explica que as alterações hormonais do sexo feminino fazem com que ser mulher seja um fator de risco para o desenvolvimento da depressão.

Ser mulher é um fator de risco para o desenvolvimento da depressão, tanto por fatores internos quanto por fatores externos 

No livro “Suicídio e Depressão: Atualizações”, de Makilim Nunes Baptista, o autor enumera alguns fatores de risco para depressão, como: “histórico de depressão na família, ser mulher, viver em uma família disfuncional, baixa educação dos pais, grande número de eventos estressantes, pouco suporte social, baixa autoestima, baixa competência intelectual, problemas de saúde, técnicas de enfrentamento das situações reproduzidas, excessiva interdependência pessoal, morte prematura de uma pessoa querida, superproteção familiar na infância e adolescência, entre outros”.

A procura por ajuda e o diagnóstico

O primeiro passo para o tratamento da depressão é buscar ajuda profissional. Mas isso não é tão simples quanto parece.

Ao identificar a depressão, para que seja percorrido o caminho até profissionais da saúde mental, para aí ser feito o diagnóstico e se iniciar o tratamento, é necessário um outro passo importante antes: aceitar que é preciso procurar ajuda. Muitas pessoas que possuem o transtorno, mesmo que identifiquem o problema, não recorrem à ajuda profissional logo de início. Para a grande maioria é preciso que ocorra um episódio depressivo grave para que o paciente resolva buscar o tratamento.

Nesse aspecto, o apoio de familiares e pessoas que convivem próximas à pessoa que possui o transtorno é de extrema importância. Mesmo que o paciente identifique que há algo errado, queira o atendimento médico e tenha sofrido episódios depressivos, muitas vezes ele não tem nem forças para ir atrás do tratamento sozinho.

Para , a família foi essencial na sua jornada para combater a doença. Quem deu o pontapé inicial para ele foi sua mãe. Ele tinha tido problemas psicológicos na adolescência, até chegou a fazer terapia, mas parou. “Quando minha mãe me levou para a psicóloga novamente, ela acabou me encaminhando para o CAPS [Centro de Atenção Psicossocial] da minha cidade. Lá fui diagnosticado com depressão e a partir daí comecei a fazer o tratamento”, lembra.

Para ele, é importante que outras pessoas entendam que a depressão não é algo simples que se resolve somente “sendo positivo”, como muita gente parece pensar. “Quando você tem depressão, por mais que você tente ser otimista… falar é muito fácil. Quando você enfrenta a doença é muito difícil de você ter uma perspectiva. Eu tento evitar falar certas coisas, dar mensagens motivacionais, porque eu sei que para quem tem depressão é como se fosse falar para o vento. Eu já me senti assim”, explica.

Ele também reitera a importância de ter ao lado pessoas que te apoiem. “Eu falaria para quem tem depressão: abra-se com alguém, alguém que seja da sua absoluta confiança, que você sabe que vai te ajudar que vai te acolher, porque esse é o primeiro passo. Com certeza isso vai te ajudar muito”, afirma.

Nem sempre a pessoa com depressão está morando com a família. Nesses casos, a atenção e compreensão de amigos e pessoas que convivem com quem possui o transtorno é necessária. Foi o que aconteceu com . Ela mesma percebeu que precisava de ajuda e deu esse primeiro passo. No entanto, foi preciso que sua amiga (que morava junto) oferecesse apoio, companhia e força para que Melissa se encaminhasse até o consultório psiquiátrico.

Melissa Ligeiro conta como foi ir ao psiquiatra pela primeira vez 

“Aquela noite foi horrível, eu lembro que eu não dormi nada. Fiquei acordada esperando dar a hora de pegar o ônibus para ir para a consulta. E eu cheguei lá, vi a plaquinha assim, ‘psiquiatra’, e chorei muito”, conta. Melissa reitera como o apoio da família foi importante “O apoio de alguém próximo nesse momento é muito importante. Assim como foi o da minha mãe para mim quando eu precisei”, afirma.

“E eu cheguei lá, vi a plaquinha assim, ‘psiquiatra’, e chorei muito.”

Morando em São Paulo capital, na mesma cidade que os pais, mas em bairros diferentes, preferiu procurar ajuda sozinho em um primeiro momento. No entanto, o contato com uma amiga teve uma grande influência para que ele recorresse a psicóloga. “Eu tenho uma amiga que tinha passado pela mesma situação, acabamos conversando. Mas quando eu decidi procurar ajuda e ir para a psicóloga pela primeira vez, eu não falei nem para ela e nem para os meus pais”, relata. O estudante só contou para seus pais e amigos mais próximos depois que iniciou o tratamento com o psiquiatra.

Nem todo mundo, no entanto, entende pelo que a pessoa está passando. Muitas vezes, quem tem depressão tenta se abrir com alguém, pedir ajuda, e só recebe incredulidade e nenhum apoio. relata que, quando se abriu com um de seus amigos, recebeu uma resposta que ele não esperava. “E ele fez aquela cara de ‘ah, sério, está fazendo drama’”, diz. Ele conta que depois ainda houve um conflito com esse amigo, que fez com que ele ficasse pior. “Me senti um lixo”, desabafa.

A psiquiatra Elaine Lúcia de Oliveira, afirma que é comum que o paciente vá ao consultório com pessoas próximas ou da família e, quando ele concorda, é realizado um trabalho de psicoeducação. Ou seja, o psiquiatra orienta os familiares a como lidar com a doença. Ela afirma que quem tem depressão sente muita culpa.

Elaine Lúcia de Oliveira fala sobre a orientação da família do paciente sobre a depressão (psicoeducação) e sobre a culpa sentida por quem tem o transtorno 

Já Sandra Calais, psicóloga, diz que a culpa é um dos principais fatores que impedem quem tem o transtorno de procurar ajuda. “Quem tem depressão pensa ‘mas eu sou saudável, eu tenho a minha família, eu não passo fome, eu tenho casa, eu tenho carro, por que eu estou assim?’ Então imagina o quanto isso gera de culpa. ‘Tanta gente no hospital sofrendo e querendo viver e eu aqui com tudo querendo morrer’”, explica.

Para Arthur, a culpa é um dos fatores que mais pesam “Eu sinto muita culpa. A psiquiatra olha para você e diz que você tem depressão, como você aceita isso? Ninguém quer assumir que está ruim. Você se sente culpado, porque percebe que você não consegue nem ser dono de você. Isso é bem difícil”, descreve.

Uma vez que o primeiro passo de procurar profissionais da saúde é dado, o diagnóstico do transtorno é simples. No entanto, a psiquiatra Oliveira ressalta que ele não segue exatamente um padrão, ele depende do paciente. “Hoje não há um contorno de cada transtorno que seja muito claro”, diz. Ela explica que muitos transtornos são vistos como diferentes manifestações do mesmo problema e destaca que o trabalho de quem realiza o diagnóstico deve ser mais humanizado. “Você não pode pegar um manual e ir fazendo ‘check’ nos sintomas que ele tem. É preciso encarar o paciente como um fenômeno que se apresenta diante do profissional”, afirma.

Às vezes, o diagnóstico da depressão vem acompanhado de outro transtorno, sendo o mais comum, o transtorno de ansiedade. Segundo reportagem publicada na revista Mente Cérebro, mais de 60% dos episódios depressivos são precedidos por quadros de ansiedade. Larissa Zeggio, psicóloga que tem o transtorno depressivo maior, teve o diagnóstico de ansiedade primeiro, iniciou o tratamento, e só depois foi diagnosticada com depressão.

Ela explica que, na depressão, outros sinais físicos aparecem menos do que na ansiedade, na qual pode haver problemas de estômago, gastrite, aumento do batimento cardíaco, alteração da pressão arterial, arritmia, etc. “Na ansiedade, você tem sintomas que são mais de excesso. Na depressão você tem sintomas que são mais de redução do funcionamento”, fala. “Por exemplo, você pode ter bradicardia, o coração batendo mais lento, ao invés de taquicardia, que ele bate mais rápido. Pode ter dificuldade de digestão, porque está tudo lentificado”, enumera.

Raphael Jarcovis explica as diferenças que ele sentia entre os sintomas da depressão e os da ansiedade 

Arthur chegou a ter crises de ansiedade, as quais, segundo ele, foram agravadas pelos compromissos exigidos pela faculdade. “A faculdade piorou bastante a situação na minha opinião, a escolha do curso, a dinâmica dos professores”, explica. Já Raphael, assim como Zeggio, foi diagnosticado com ansiedade e, depois, com depressão. Ele explica que a ansiedade não deixa você ficar parado, enquanto a depressão é o contrário.

Há ocasiões em que a depressão é diagnosticada junto com síndrome do pânico. É o caso de , que só procurou ajuda depois de um episódio depressivo tão profundo que não pôde nem responder por si mesma. Ela conta que, mesmo tendo tentado o suicídio pela primeira vez aos 12 anos, foi só com 27 que foi levada a procurar ajuda psiquiátrica. “Eu não reconhecia ninguém, nem a minha própria mãe. Via todos deformados, eu não saía de casa, não tomava banho sozinha, não comia. Eu via vultos e ouvia vozes e tive que ser levada para fazer tratamento”, relata.

O caminho

Além de psicoterapia e medicação, o tratamento para depressão pode implicar mudanças de rotina e de estilo de vida.

Larissa Zeggio esclarece que nem sempre é necessário tomar antidepressivos no tratamento da depressão 

A noção geral acerca do tratamento da depressão é que ele sempre envolve antidepressivos e psicoterapia. No entanto, o método de tratar a doença pode variar muito de caso para caso. A psicóloga Larissa Zeggio diz que a ideia de que o tratamento sempre vai exigir o uso de remédios é errônea e alimenta o medo que as pessoas têm de buscar o diagnóstico, por não quererem tomar medicamentos.

O nível de gravidade da doença é um dos fatores que define como será o tratamento. As depressões leves podem melhorar sem intervenção medicamentosa, mas as depressões moderada e grave necessitam dos remédios.

“Depressões leves podem ser tratadas exclusivamente com terapias de apoio e podem inclusive melhorar espontaneamente, sem tratamento nenhum”, diz Hewdy Ribeiro, psiquiatra. “Já as depressões moderada e grave não revertem sem tratamento medicamentoso, sendo muito bem-vinda a psicoterapia e a atividade física também, já que há pesquisas científicas que comprovam que exercícios têm um efeito antidepressivo para esses pacientes”, completa.

Hewdy Ribeiro fala que a junção dos medicamentos com a psicoterapia é o ideal para tratar depressão 

Para o médico psiquiatra, o tratamento combinando a psicoterapia e a medicação é o ideal para casos de depressão. Ele afirma que nem sempre é possível que o tratamento ocorra dessa forma, por limitações financeiras e de infraestrutura.

Só quem pode analisar se o paciente precisa de remédio e passar a receita são os médicos, por isso, nos casos de depressão, o ideal é que a pessoa seja acompanhada por vários profissionais. A Sandra Calais, psicóloga, reitera a importância do trabalho em conjunto que faz com o psiquiatra, porque os esses últimos avaliam se o paciente precisa ou não de medicação e acompanham a evolução do quadro durante o tratamento para julgar se ainda é necessário o remédio, se ele pode diminuir a dose, se é preciso trocar o medicamento, etc.

“Se a pessoa me procurar e ainda não tiver passado por um psiquiatra, ou até um neurologista, às vezes, eu imediatamente encaminho, por causa do risco de suicídio. Não se atende na clínica psicológica paciente em quadro de depressão sem o acompanhamento psiquiátrico”, explica.

Há muitos tratamentos alternativos para a depressão, entre eles biblioterapia, aromaterapia, musicoterapia, acupuntura, homeopatia, fitoterapia e meditação, por exemplo. Segundo Ribeiro, alguns desses tratamentos alternativos podem ajudar em casos de depressão leve e funcionar como complementares ao tratamento medicamentoso e à psicoterapia em casos de depressão moderada e depressão grave.

Calais diz que tais tratamentos alternativos podem desempenhar um papel muito positivo no processo de tratar a depressão e acrescenta que o apoio é muito importante para uma pessoa que está passando pelo tratamento da doença: tanto o apoio familiar, como o apoio social, passando até mesmo pela religião. “A condição de espiritualidade existe no ser humano”, segundo ela.

É recomendado que, simultaneamente ao tratamento, pessoas depressivas levem uma vida saudável, que inclua a prática de atividades físicas, uma alimentação equilibrada e hábitos regulares de sono. Essas recomendações servem como uma forma de prevenção da doença.

Elaine Lúcia de Oliveira fala que usa tratamentos alternativos somente para pacientes que não se adaptam à medicação de jeito nenhum 

Quando o paciente tem muita dificuldade de se adaptar às medicações ou até mesmo não se adapta de jeito nenhum, os tratamentos alternativos podem ser uma opção efetiva. Oliveira diz que utiliza tais métodos em casos assim e afirma que eles não ocorrem com tanta frequência. Ela reitera que só utiliza os métodos que tenham algum tipo de comprovação científica e reforça a importância de uma vida ativa, de uma alimentação saudável e até mesmo de atividade intelectual como elementos chaves no tratamento e prevenção da depressão.

Pílula da felicidade?

Os antidepressivos agem sobre o sistema nervoso, aumentando a quantidade de importantes neurotransmissores que interferem no humor. Há diversos tipos de antidepressivos e, por isso, é importante que a utilização desses remédios não seja feita por conta própria, sem a orientação de um especialista.

O aumento dos neurotransmissores causada pelos antidepressivos melhoram os sintomas da depressão, aumentado a qualidade de vida do paciente. A ideia de que esses remédios podem melhorar o humor ou tornar pessoas que não apresentam condições psiquiátricas mais felizes é errônea.

Muitas vezes, as primeiras medicações podem trazer alguns efeitos colaterais, que, segundo Ribeiro, são temporários, como boca seca, intestino preso, dor de cabeça, tremor, algum prejuízo de memória, desconforto físico e sensação de formigamento. “Eles desaparecem em aproximadamente duas semanas depois da retirada do medicamento. Alguns medicamentos demoram até um mês, porque ficam resquícios no sangue por aproximadamente um mês”, relata.

, que retomou o tratamento da depressão recentemente, agora toma remédio e faz acompanhamento com psicóloga e psiquiatra. Ele diz que sente alguns efeitos colaterais que o incomodam. “A medicação me deixa apático. Falei para a psiquiatra que eu não estava gostando de tomar remédio porque eu não estava sentindo nada”, descreve. Ele sente uma fome insaciável que acredita ser em decorrência do remédio, mas acrescenta que a medicação está fazendo bem para ele.

não toma mais medicação, mas chegou a trocar de remédio três vezes até acertar um que não a fizesse sentir tanto os efeitos colaterais e tivesse um resultado satisfatório sobre os sintomas da depressão. “Não existe uma medicação perfeita e aqui é difícil para mim falar sem ser especialista, porque foi muito mais simples eu entender o efeito colateral da medicação e a dificuldade de acertar a dose ou o tipo de remédio justamente por causa da minha formação”, diz.

Ela acrescenta que remédio não faz mágica. “Ele só reduz os sintomas para que você fique minimamente funcional para buscar um tratamento. Com o tempo eu fui lidando melhor com a medicação e, junto com a psicoterapia, fui tentando encontrar estratégias alternativas que fossem baseadas em evidências científicas para ir reduzindo a necessidade de medicação”, explica.

Larissa Zeggio fala dos cuidados que é preciso ter ao introduzir a medicação em paciente com depressão grave

A psicóloga relata que, em indivíduos que têm depressão grave, quando a medicação é introduzida, ele precisa ser acompanhado 24 horas por dia, pois um dos efeitos colaterais é o aumento de ideações suicidas. “Há um risco muito grande de tentativa de suicídio. Em geral, em pacientes muito graves, não há a tentativa porque o sujeito não consegue nem levantar da cama para tomar banho, muito menos para se matar. Quando você dá a medicação, ele melhora um pouco a energia, a motivação. E é nesse momento de melhora que ele tenta se matar”, afirma.

diz que, quando você tem depressão, é o momento de parar de olhar para fora e começar a olhar para dentro. “Só que aqui dentro também está uma zona, porque a gente acaba sendo reflexo da sociedade. E a gente não se enxerga, não conhece nossas potências, nossos pontos fracos. Você conhece muito aquelas coisas que você quer evitar de qualquer jeito. Por quê? Para não sentir a dor. Nisso a gente é especialista”, diz.

Para ele, as pessoas não se conhecem. “Elas não sabem o que verdadeiramente as faz felizes, elas não sabem o que elas estão fazendo aqui. Como funciona a escola? Alguém pergunta uma coisa que você estudou e você responde. Você não se pergunta as coisas. Você não foi ensinado a se perguntar, você só foi ensinado a responder. E isso é um problema”, afirma. É nesse sentido que atua a psicoterapia.

Sandra Calais fala da importância da psicoterapia no tratamento da depressão

A psicoterapia funciona como um instrumento de autoconhecimento para que o paciente se questione e identifique os pontos de sua vida que o fazem mal. explica como as sessões influenciam para que sejam feitas mudanças na vida de quem tem depressão, ajudando a manter a doença sob controle.

A psiquiatra Oliveira considera a psicoterapia fundamental para identificar os pontos de estresse do paciente. “Você vai fazer uma avaliação, dependendo da linha de terapia que você trabalha. Eu trabalho com psicanálise, por exemplo, e você identifica os mecanismos de defesas neuróticos que essa pessoa costuma usar, quais são favoráveis e quais são desfavoráveis”, diz. A psiquiatra explica que o objetivo é desmanchar os mecanismos desfavoráveis fortalecer os favoráveis. “A pessoa então se fortalece emocionalmente para que ela reaja de uma maneira mais saudável ao stress, às frustrações que a vida traz”, completa.

Para , a psicoterapia funciona como um ponto de apoio. “Eu acho essencial, porque tem situações que acontecem e que nem sempre você está preparado para enfrentar. Fazendo a terapia, você tem um suporte, uma assistência muito importante, sem dúvida”, declara. Raphael, que teve alta do tratamento e, portanto, não toma mais remédio e não faz mais psicoterapia, diz que esta última deixava mais claro para ele tudo o que ele estava enfrentando, agregando ao tratamento com os remédios. “A terapia me ajudava a entender o que estava acontecendo. Tinha muito o questionamento ‘por que eu estou me sentindo mal hoje?’. E isso ajudava bastante, então era o complemento da medicação”, explica.

A psicoterapia é um trabalho colaborativo entre o paciente e o profissional da saúde (psicólogo ou psicoterapeuta) e os seus resultados vão depender diretamente da relação que será desenvolvida entre os dois e do próprio engajamento do paciente. O psicólogo vai tentar interagir com o paciente com o intuito de fazê-lo perceber seus padrões de pensamento e comportamento. A psicoterapia é indicada no tratamento da depressão e de outros transtornos mentais, e pode ajudar pessoas que buscam autoconhecimento e o crescimento pessoal.

Existem muitas abordagens teóricas que podem ser utilizadas na psicoterapia e o paciente se identificar com a abordagem que é utilizada por seu psicólogo ou psicoterapeuta é importante para que os resultados sejam os melhores possíveis. Confira abaixo alguns tipos de psicoterapia que estão entre as mais comuns.

Na rede privada, há consultas com psiquiatras, que podem prescrever medicação, e sessões com psicólogos. Os planos de saúde podem limitar as sessões de psicoterapia para 18 anuais, como está previsto na Resolução Normativa 387/2015 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que pode não ser suficiente para alguns pacientes. Universidades que possuem o curso de Psicologia costumam oferecer atendimento de graça ou cobrar um valor simbólico, mas as filas de espera costumam ser grandes. A recomendação nesses casos é insistir no tratamento.

Hewdy Ribeiro, psiquiatra, explica como funciona o atendimento para depressão no Sistema Único de Saúde (SUS)  

Na rede pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito. Ele geralmente é realizado a partir das equipes de saúde da família, que contam com psicólogos e psiquiatras para discussão de casos, para avaliações especializadas e para acompanhamento psicológico e psiquiátrico quando necessário. Os casos avaliados mais graves, que necessitam de cuidado mais intensivo (várias vezes na semana), ou com maior fragilidade social (ausência de vínculos familiares efetivos), são encaminhados para acompanhamento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que trabalham com equipes multidisciplinares.

Larissa Zeggio, psicóloga, fala sobre a lógica de funcionamento do SUS 

Como não há um exame físico para diagnosticar a depressão, o mais adequado é que haja profissionais com diferentes treinamentos de observação para poder fazer um diagnóstico mais apurado. Segundo a psicóloga Zeggio, é mais fácil que isso ocorra no SUS do que nos atendimentos privados. “Aí, sim a gente tem uma equipe multiprofissional, para fazer acolhimento, avaliação, diagnóstico, intervenção. Do ponto de vista particular, um profissional ou outro acaba fazendo esse diagnóstico. Se forem bons profissionais, um bom psicólogo sempre tem um psiquiatra que trabalha em conjunto”, explica. Ela fala que o principal problema do SUS é a alta demanda da população, não a sua lógica de funcionamento.

“A árvore seca era eu”

De acordo com especialistas, pensamentos suicidas são comuns em quem tem depressão.

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde em setembro de 2017, o suicídio é a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil. No país, em média 11 mil pessoas tiram a própria vida por ano. Em 2011, foram 10.490 mortes por essa causa, ou seja, 5,3 a cada 100 mil habitantes. Em 2015 o número chegou a 11.736, ou 5,7 a cada 100 mil.

Há inúmeras mortes por suicídio que são registradas como tendo outras causas. Isso pode acontecer por diversos motivos, entre eles a vergonha da família, que tenta encobrir como o falecimento realmente aconteceu. Há mortes que são investigadas, mas não há resultados conclusivos, fazendo com que a notificação de suicídio não seja tão precisa. Por exemplo, em 2015, de 1,2 milhão de mortes, 17% tiveram causa externa – e dessas 40% forma registradas por causas não determinadas. Algumas dessas causas não determinadas são subdiagnosticadas como suicídio.

A psicóloga Larissa Zeggio adverte que nem todo mundo que realiza uma tentativa de suicídio ou efetivamente se mata tem depressão. “Nem todas as pessoas que tentam o suicídio têm transtornos mentais. Mas, das pessoas que fazem a tentativa, 9 em cada 10 tem algum transtorno mental. Que podem ser vários, entre eles a depressão”, explica. Os pensamentos suicidas, muitas vezes, fazem parte dos sintomas do transtorno depressivo, como consequência da perda de esperança que é característica da doença.

Segundo Zeggio, a ideação suicida nem sempre se apresenta com desejos de morte muito claros. “Às vezes, não é tão consciente. O indivíduo pensa ‘eu quero dormir para sempre’. Não é ‘eu vou me matar’, mas o efeito é o mesmo, de não querer fazer nada e não querer viver. E boa parte do ficar no quarto deitado, um dos sintomas mais clássicos da depressão, vem disso. É uma morte transitória”, diz.

Larissa Zeggio explica que, muitas vezes, os pensamentos suicidas estão camuflados em desejos como “eu quero fugir” ou “eu quero desaparecer”

Mesmo que não se chegue a tentar o suicídio, grande parte das pessoas depressivas pelo menos consideram a possibilidade de realizar uma tentativa. “Tentei me matar de muitas formas, tive tentativas diretas e indiretas. Mas com o tempo consegui perceber que essa era uma estratégia que não resolveria nada, só deixaria mais sofrimento para as outras pessoas”, conta a psicóloga. Ela conseguiu tirar a ideia do suicídio da cabeça com muito custo e muito apoio. E seu conselho para quem possui tais desejos é exatamente esse. “Busque ajuda, busque apoio”, diz.

Além de ser um grande tabu ainda nos dias de hoje, há um mito popular demasiadamente errôneo em torno do assunto suicídio: o de que quem realmente quer se matar não avisa. Especialistas da área da saúde afirmam que isso não corresponde à realidade e que, na maioria dos casos, a pessoa que tentou se matar ou chegou a finalizar o ato indicou que não estava bem, pediu ajuda ou avisou claramente antes de agir. De acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), 90% dos suicídios poderiam ser evitados.

Muita gente rotula o suicídio como um ato para chamar a atenção, para aparecer. fica indignada com essa ideia. “Quando eu tentei me matar a primeira vez eu tinha 12 anos, por que uma pessoa de 12 anos precisaria aparecer? Não era para chamar atenção, era para morrer mesmo”, declara. É por isso que é importante ouvir o que as pessoas têm a dizer e tentar fazê-las se sentirem acolhidas, sem fazer pouco caso ou duvidar.

“Na depressão, você não tem perspectiva de vida. Eu ia em uma psicóloga e eu desenhava lá. Eu sempre desenhava um homem e uma árvore seca, um homem e uma árvore seca. Até que ela me perguntou o que eram aquelas coisas. A árvore seca era eu”, diz Janaína.

Pessoas diagnosticadas com depressão falam sobre suicídio 
Pessoas diagnosticadas com depressão falam sobre suicídio 

Se você lida com pensamentos sobre suicídio ou conhece alguém que apresenta sinais de comportamento suicida, procure a ajuda de um profissional da saúde. Você pode falar com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio gratuitamente e sob total sigilo através de telefone, e-mail, chat e Skype, 24 horas por dia.

Para conversar com o CVV Ligue 141 ou gratuitamente para 188 (o número 188 está disponível em 16 estados: Acre, Amapá, Amazonas, Espirito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Santa Catarina, São Paulo, Tocantins, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e o Distrito Federal) Acesse http://www.cvv.org.br/

Nem sempre é tempestade

Com o tratamento adequado, é possível superar períodos turbulentos da doença e recuperar a qualidade de vida, alcançando um estado de equilíbrio.

Janaína aconselha a não falar para uma pessoa que tem depressão que tudo vai se resolver. “Nunca, em hipótese alguma, diga que vai ficar tudo bem. Porque para a gente nunca está tudo bem e, por mais que as pessoas digam isso, as coisas não vão se resolver magicamente. Por exemplo, você vai embora e eu vou ficar aqui sozinha, pensando um milhão de coisas”, afirma. “Se eu disser ‘força, vida que segue’ é mentira. Não é vida que segue, você não quer ter vida que segue, você queria que ela não seguisse. Porque a gente não quer viver”, fala.

Como demonstra Janaína, a luta contra a depressão é muito dura e pode ter pontos muito baixos. Mas é possível alcançar um estado de equilíbrio seguindo o tratamento e tomando determinados cuidados. Há quem acredite até que a depressão vem como um alerta para prestarmos mais atenção em nossa saúde, sendo, portanto, uma coisa boa. , por exemplo, acha que sua depressão o trouxe algo positivo. “Porque a depressão veio para me mostrar uma coisa que eu precisava fazer, que estava me incomodando muito não fazer”, explica.

“Imagina no painel do seu carro, começa a acionar uma luzinha laranja. Cara, tem alguma coisa errada. Você pode fingir que está tudo bem, falar ‘ah, não, depois eu vejo’. E é mais ou menos isso que acontecia. Até que eu encarei o problema”, declara.

Para Anderson, o que ele mais ganhou no processo de luta contra a depressão foi o autoconhecimento. Hoje, ele identifica os momentos em que a doença está chegando e está correndo atrás de mudanças que precisam ser feitas além do tratamento que ele segue para que ele tenha mais qualidade de vida. “Uma coisa que eu vou fazer agora, eu preciso fazer, é atividade física. Não é mais negociável”, sentencia.

Segundo ele, coisas que o deixam para baixo são falta de cor e de calor. “O cinza de São Paulo não ajuda. Eu detesto cinza, sempre detestei.  Em Portugal [onde ele morou] o cinza também era frequente. Aliás, era muito mais intenso”, afirma. Ele diz que o frio da Europa o deixava para baixo. “Ficava mais ou menos durante seis meses transitando de 10ºC a -5ºC e eu detesto frio. Em contraponto disso, uma coisa que realmente ajuda: a música. Eu estou começando a pesquisar a influência da música nessa história”, explica.

Além do autoconhecimento, é claro, há o projeto que Anderson desenvolveu: “Depressão não é frescura”, com o livro e as “paliestras”. “Eu sou muito feliz fazendo esse trabalho, porque eu consigo fazer a diferença na vida de algumas pessoas. Eu recebo alguns relatos da importância do meu trabalho na vida delas”, fala. Mesmo enfrentando a depressão, o Anderson conseguiu transformar a dor em uma forma de motivação. “Por mais complexa que seja essa doença, que ela te leve efetivamente para o buraco e tudo mais, eu fui desenvolvendo esse lado”, explica.

Não foi só o Anderson que desenvolveu um propósito de ajudar as pessoas ao combater sua depressão. diz que ela teve dois ganhos ao enfrentar a doença: o autoconhecimento e um sentido de vida, que é o trabalho que ela faz, conscientizando sobre o transtorno. “Eu realmente não quero que ninguém passe por isso. Se eu conseguir ajudar meia dúzia com o trabalho de conscientização, eu estou feliz. Mas eu sei que eu já ajudei centenas de pessoas direta e indiretamente com os profissionais que eu formo e toda essa movimentação de discussão sobre saúde mental. E eu quero que isso cresça mais”, afirma ela.

E, para a psicóloga, esse sentido que ela encontrou integrou suas histórias pessoal e profissional. “Ele é interno, é profundo. É um sentido único de vida, não é ‘na minha vida pessoal eu quero tal coisa, na minha vida profissional eu quero tal coisa’. Não, ele é meu caminho de vida. E isso eu não tinha antes. Isso gera um bem-estar absurdo”, relata.

Seu trabalho de informar as pessoas, divulgar e falar de prevenção vem da sua percepção de que, se ela não tivesse estudado tanto o assunto, talvez ela mesma não teria tomado a consciência que ela tem hoje em relação aos cuidados que devemos ter com a nossa saúde mental. Segundo a psicóloga, essa consciência não veio do fato de ela ser paciente, mas sim de sua formação. “A culpa que um depressivo sofre de achar que a gente tem que dar conta, tem que ser superpoderoso o tempo inteiro, destrói a possibilidade de autoconsciência. Eu sou bastante privilegiada por ter tido uma formação específica na área”, afirma.

Larissa Zeggio fala sobre como é importante cuidarmos de nossa saúde e diz que o custo de deixarmos nós mesmos de lado será grande no futuro 

A psicóloga Larissa Zeggio explica que é muito importante cuidar da saúde todos os dias, incorporando pequenas ações na rotina, como prevenção não só da depressão, mas de outros transtornos mentais. Essas pequenas ações ajudam a manter nossa mente sã. Ela critica o preconceito que existe em relação a cuidar da saúde mental, algo que ainda é visto como fútil e até mesmo “perda de tempo” em uma sociedade que parece ter se tornado obcecada por usar cada milésimo de segundo para produzir alguma coisa.

Como ela não toma mais medicação, Zeggio tem uma rotina muito bem organizada, repleta das pequenas ações que previnem a depressão de voltar a tomar conta. Ela explica que o autoconhecimento que adquiriu ao longo do tempo é enorme e ela realmente sabe quando alguma coisa pequena pode ter um impacto grande na sua saúde, conseguindo perceber e fazer alguma alteração rapidamente, para que um episódio depressivo não se instale. “Esse nível de autoconhecimento é extraordinário. Isso me ajuda não só a perceber se há um episódio depressivo chegando, mas também em relacionamentos, em trabalho, em dar aula, com pacientes, etc.”, diz.

A psicóloga faz atividades físicas todos os dias, mora em um local cercado pela natureza (“a gente sabe que o contato com a natureza é um fator de proteção para depressão”, diz ela), tem uma alimentação muito rigorosa e toma bastante sol. “Eu fico na luz bastante tempo e, quando eu percebo que não tem luz solar suficiente, eu viajo, tenho que ir para outra cidade mesmo. É um gatilho para mim, ficar sem sol”, explica.

Há vezes em que alguns sinais da depressão começam a aparecer, mas ela consegue controlar, mesmo sem tomar medicamentos. Desde 2011, ela não passa por um episódio depressivo. “Para o meu histórico, que tive nove episódios severos, com tentativas de suicídio, é incrível não ter um episódio há seis anos e meio. Mas eu tenho que estar muito consciente o tempo inteiro, quando começam a aparecer os sinais, eu tenho que parar tudo e falar ‘hoje eu não vou trabalhar, hoje eu vou reorganizar a minha rotina de novo’”, conta.

Há uma flexibilidade no trabalho, o que a permite ter mais cuidado com a própria saúde. “Essa foi uma das mudanças que eu tive que fazer. Há oito anos, eu não tinha essa flexibilidade: trabalhava em universidade e tinha consultório. As pessoas acham que isso é frescura. Não tem nada de frescura, é isso ou fundo do poço. Hoje eu respeito meu limite. Essa rotina e esses cuidados com a saúde precisam ser constantes. E isso é um ato de disciplina. Eu sei que para o resto da vida terá que ser assim”, conclui.

Assim como ela, sabe quando um episódio depressivo parece estar chegando. “Quando eu percebo que quero me isolar, eu vou conversar com algum amigo, vou ver um filme, fazer qualquer coisa. A gente tem que lutar contra aquilo que faz mal para a gente. Isso é muito difícil, mas necessário”, fala. O estudante afirma que atualmente consegue discernir melhor quais são os seus limites. “Hoje eu aprendi a respeitar a minha dor”, declara.

Segundo Arthur, empatia é uma palavra-chave quando se trata das outras pessoas. “Quem não tem depressão, que seja mais empático. Se coloque no lugar do outro, pare de criticar. Aprenda a respeitar o outro. Você não sabe o que as pessoas passam”, ele diz.

“Quem não tem depressão, que seja mais empático. Se coloque no lugar do outro, pare de criticar.”

Se houvesse mais empatia, talvez a não tivesse sentido um desconforto em contar para as pessoas que ela tinha a doença. “Eu não me sentia à vontade para contar para outras pessoas da minha doença. Mais pelo fato de que eu não aceitava. Poucos familiares e pouquíssimos amigos sabiam. Eu contava o mínimo possível”, recorda. Hoje, com os sintomas sob controle e mais bem resolvida em relação à depressão, ela não vê problema em falar sobre isso, até porque quer ajudar a propagar mais informações sobre o transtorno. “Me sinto confortável em falar sobre o assunto. Muitas pessoas passam por isso e é importante falar sobre para ajudar outras pessoas a reconhecer o problema e a superá-lo”, diz.

Ela reitera que a depressão precisa ser encarada com a seriedade que uma doença exige. “Depressão não é frescura. Confesso que antes eu achava que era, mas ela te pega em momentos inesperados”, revela. “Eu acho que tem que estar com a cabeça aberta para caso aconteça com você. É difícil, muito difícil, mas procure ajuda. Se você não quer procurar ajuda médica logo de cara, procure ajuda da família, dos amigos, de alguém que você confie. Não deixa agravar. Essa doença pode ser tratada. Então, procure ajuda”, reforça.

concorda. “Quem está passando por isso, deve procurar ajuda profissional. Só psicólogos e psiquiatras vão saber lidar com isso, porque depressão é uma doença – mais do que qualquer coisa, é um problema de saúde pública que afeta milhares de pessoas no mundo inteiro. Se não tiver dinheiro, procurem a saúde pública. Sei que é difícil, mas vale a pena tentar”, fala.

“Quem está passando por isso, deve procurar ajuda profissional. Só psicólogos e psiquiatras vão saber lidar com isso, porque depressão é uma doença.”

Seguindo o tratamento corretamente e protegendo a saúde mental é possível conviver com a doença tendo qualidade de vida. Para João, o mais certo a se fazer é se cercar de tudo o que te faz bem ao enfrentar a doença, deixando de lado tudo aquilo que te faz mal. “Tentar abandonar comportamentos que não te fazem bem, relacionamentos com pessoas que não te fazem bem e procurar novos horizontes, procurar aquilo que você gosta. Se você quer fazer alguma coisa nova vai lá e faça, porque aquilo vai te ajudar muito sim”, aconselha.

João também diz que, mesmo sendo possível viver sem os sintomas, a depressão vai sempre estar lá. “Eu não sei se é uma analogia correta, mas eu acho que é como se fosse um vírus adormecido. A tendência a você ter a doença sempre vai estar lá. Você pode viver sem os sintomas e buscar a qualidade de vida, mas tem que estar sempre atento, pois a qualquer momento a doença pode voltar. Nesse sentido eu falo que é um cuidado pelo resto da vida”, diz. “Se você repetir determinados comportamentos que fazem mal ou passar por situações não causadas por você às quais você não souber reagir, a doença pode voltar. É uma coisa que acho que vai estar sempre ali rondando”, completa.

Mesmo com a depressão “rondando”, os papeizinhos que a Melissa pendurou na parede do seu quarto como lembretes para ela mesma dão a ideia de que a luta não está perdida – porque ainda há resistência.

“Não foi fácil chegar aqui... Não desista!” e “Você é mais forte do que tudo isso!” 
“Não foi fácil chegar aqui… Não desista!” e “Você é mais forte do que tudo isso!” 

A reportagem “(In)existência: quando a melancolia engole o ser humano” tem caráter informativo. Se você acredita que apresenta os sintomas da depressão, procure um profissional de saúde.

Expediente

A reportagem “(In)existência: quando a melancolia engole o ser humano” foi produzida pelas alunas Heloísa Scognamiglio e Jéssica Dourado como Trabalho de Conclusão de Curso em Comunicação Social – Jornalismo, na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), da Unesp de Bauru.

Produção: Heloísa Scognamiglio Jéssica Dourado

Orientação: Prof. Dr. Francisco Rolfsen Belda

Vídeo de capa: Kat Napiorkowska (reutilização autorizada)

Imagens: Pixabay Unsplash

Vídeos: Heloísa Scognamiglio Jéssica DouradoPexels Pixabay

Contato: heloisamscognamiglio@gmail.comjessicadouradoliveira@hotmail.com